Somos finitos. Nem a lembrança do que fomos consegue sobreviver. Vão ventos, vão tempos e nada sobra. Coisas que não eram, passam a sê-las em decorrência de sua ausência. Você, afinal, não existe mais naquele mundo.
E quando no mundo em que você resta não existe espaço para sua personalidade? É, algo assim como um estranho no pré-paraíso: apesar da sua subsistência, as pessoas não conseguem captar seu gênio, sua reações, suas ansiedades, sua máscara protetora contra a vida social mera e enganosamente necessária, sendo seu aparecimento um findo desaparecer de qualquer coisa sem impacto, sem notoriedade. (O caso do pré-paraíso seria a espera, quase salutar, de que nesse terreno habitável por tantos e tantas, exista aqueles e aquelas que sabem distinguir um bom sujeito a distância, dotado de humor inteligente, desapego a conveniência, estilo alternativo de viver, ouvir, ler, amar e sentir, e, para completar, com um formidável senso de direção para o inverso).
Ser diferente é enredado. Se não fosse forte o bastante (numa força que emana De cima), o caraládebaixo conseguiria embutir uma série de sentimentos deploráveis e deprimentes que nos faz (te faz) sentir um minúsculo esquecido nas prateleiras das convenções sociais.
É assim, a maioria de tantos e tantas ainda não conseguiu uma maturidade emocional/intelectual/psico-filosófica para saber distinguir que a diferença do outro é apenas a diferença do outro e que isso existe exatamente pelo fato do outro ser o outro. Se o outro fosse eu, seríamos iguais e não diferentes. A maturidade serve para observarmos a diferença como algo inteligentemente formulado pelo grande De cima, como um banquete de escolhas, como uma máquina incentivadora do pensar sem ultrapassar o limite (o seu limite e não o de pensar).
Captação de benevolência e diálogos deleitosamente subjetivos resultam nas melhores respostas. Usar de sagacidade e sutileza na hora de "esmiuçar" a diferença do outro é uma fórmula infalível, e claro, uma fabulosa agudeza de espírito.
Estou convencida: ser diferente não é normal - e qual é aquele que prefere a trágica normalidade?