Eu não conheço a sensação de ter
um filho.
Eu nunca passei por dificuldades
para alimentar um.
Eu nunca passei uma noite num
hospital com um filho doente.
Eu nunca me preocupei com a
escola ou com qual educação seria ideal.
Eu não cuidei daquele ralado no
joelho e nem custei a desembaraçar os cabelos com piolhos.
Eu não entupi ninguém de Biotônico
Fontoura e não obriguei a tomar suco de laranja, cenoura e beterraba.
Eu não dei bainhadas de facão nas costelas para pagar estripulias.
Eu não me orgulhei pela
inteligência e desenvoltura de um filho.
Eu não fique feliz com o primeiro
“bico”, primeiro estágio, primeiro emprego.
Eu não me envaideci quando passou
na primeira graduação, nem quando passou na segunda.
Eu não agradeci a Deus pela
vitória de um filho conseguir se virar sozinho, morar sozinho, se sustentar
sozinho, comprar uma moto sozinho, comprar uma casa sozinho.
Eu não sei o que é nada disso. Eu
sou o filho.
Porém, há algumas observações.
Existe uma certa rejeição. Sim,
uma rejeição. E isso eu já sabia, mas nunca tinha doído tanto até ter
confirmação. O fato de eu ter um “problema” fez com que ela transferisse ou intensificasse
o amor dela pelo outro filho. E foi assim que ela disse. E foi assim que eu
ouvi.
Minha educação sempre foi muito
rígida. Sempre fui muito cobrada. No entanto, a minha personalidade é efeito da
de quem me criou. A questão de querer ser livre e não dar mais trabalho a ninguém é algo que sempre gritou. Sair de
casa não foi uma afronta. Pelo contrário, quando eu anunciei, fui recebida sem
um minimozinho de questionamentos. Nada. Eu só marquei o dia de minha saída,
coloquei as coisas que havia comprado em cima de um caminhão e fui para minha
nova casa. Até visitas eu recebia – dos meus pais.
Mas o tempo foi passando... e a
vida dela não caminhou como ela queria. Mas a minha sim.
Os meus dias sempre foram de
vitórias e conquistas. Enquanto era perseguida, enquanto era massacrada,
enquanto esforços para me derrubar aconteciam - em vão, o meu Senhor me
honrava, me protegia e me livrava de cada mal que planejavam contra mim.
Problemas emocionais se tornaram
vivos e pulsantes na vida dela. Já fez muitas e muitas loucuras e agiu com
insensatez. Afastou pessoas e, a cada dia que passa, fica mais sozinha.
Tentativas de suicídio até
aconteceram, mas foram muito bem calculadas e, logo, não passaram de
tentativas.
De tudo que se passou, o que
resta, de muitos, é raiva. De outros, é pena. De mim, até onde Deus me dê
condição, é compaixão.
Eu sou aquilo que fui moldada.
Não estou dizendo que o molde foi ruim ou bom. Eu apenas sou. E isso não tem
nada a ver com egoísmo.
De qualquer forma, há sempre
adjetivos bons para a classe dela. E eu, já desejei que muitas fossem para mim
a classe que ela pertence. Mas não dá. Esse é o tipo de coisas que você não
pode comprar ou trocar. Foi Deus que te deu e tem um motivo.
Sinto que sou um “acidente”.
É, aquela recusa que houve quando eu estava perto de nascer se prolongou e é
presente até hoje, mas de uma forma sutil. É como se fosse uma Guerra Fria – “disputas
estratégicas e conflitos indiretos”.
Por conta da depressão, às
vezes eu acho que ela me odeia por eu ter conseguido coisas na vida que ela não
conseguiu. Outras, eu acho que ela se sente fraca por nunca ter conseguido me derrubar
em suas investidas – que não foram poucas e nem suaves. E enfim, acredito que é
aquilo mesmo que ela falou ao telefone com outra pessoa: “eu sempre mimei e
estive junto e apoiei mais ele do que ela, por conta daquelas coisas dela (...)”
Definitivamente, ela venceu.
Agora, preciso de alguém que me
ensine a continuar honrando pai e mãe.

